Hora de quebrar a rotina

Tempo de descanso. Hora de guardar a correria do dia a dia das crianças na mochila para estar aberto a um novo ritmo. Vale tomar um banho de chuva dormir com cachorro e ate fugir de regras como comer e dormir na hora certa… A seguir, confira dicas de especialistas para quebrar a rotina dos filhos sem deixar a segurança de lado. Tenha certeza de que esses momentos vão se tornar memorias tão divertidas quanto felizes.

As 6h o relógio desperta. E preciso acordar as crianças. As 6h10 começa a “batalha” para colocar o uniforme. Às 6h30 o café está na mesa. As 7h e hora de escovar os dentes. As 7h10, de conferir a lancheira e a roupa da natação. As 7h15, a mochila já esta  nas costas rumo ao colégio. Ufa!!! Só de lembrar dessas poucas horas da manhã da sua família você já fica estressada? Você não é a única. Pesquisa da Nova Zelândia encomendada pela empresa BPme, um aplicativo que fornece combustível e café, encontrou evidencias de que a mãe ou o pai que se responsabiliza pela rotina da criança pode experimentar ate seis momentos de estresse por dia. Mas calma, porque a momento de dar uma pausa nisso tudo. Afinal, as férias escolares chegaram. E, mesmo que o seu filho esteja de folga e você não, o período é de descanso, relaxamento e felicidade. Portanto, que tal aproveitar este mês para acumular boas memórias e  relaxar? Afinal, de nada adianta você e/ou seu filho ter tempo livre, com promessa de diversão, se no dia a dia a rigidez continua, tendo hora para o pequeno entrar no banho, sentar-se a mesa para jantar, ir para a cama, arrumar os brinquedos espalhados pela casa, ficar pronto para sair…

Nada contra a rotina, pelo contrario. Há inúmeros  estudos que atestam sua importância. “Ela desenvolve hábitos positivos e melhora a aderência a práticas de convívio, além de ser um aprendizado”, explica o pediatra Daniel Becker (RJ). Mas, dar uma pausa nessa sequência de afazeres também tem lá seus benefícios. “Quando você sai  do piloto automático, a saúde melhora como um todo, pois fazer o que você quer, na hora que você quer, sem regras, pressão e estresse, resulta em mais leveza, prazer e felicidade”, diz a psicóloga Rita Callegari, da Rede de Hospital São Camilo (SP).

 E não são só os pais que ganham, viu? As crianças também lucram com tudo isso e tem alguns bônus! Além de se divertir e descansar, essa quebra da rotina melhora o desenvolvimento social, emocional e cognitivo. E essencial para o pequeno criar novos repertórios, assimilar conteúdos, saber que há  momentos na vida em que podemos ou precisamos flexibilizar. Além disso, a importante que ele se sinta livre para explorar o mundo, no tempo dele. E por falar em tempo, não ter hora certa para tudo é um dos motivos que faz Laura Castro, 8 anos, ficar contando os dias para as férias.

“Se deixar, ela dorme tarde e acorda tarde. Adora ficar no quarto por horas brincando e redescobrindo brinquedos esquecidos no fundo das caixas”, conta a mãe, Marieta Castro, 48. É o chamado ócio criativo. “Funciona como se abríssemos o guarda-chuva da nossa mente, que não notamos que existe na correria do cotidiano, para pensar fora da caixa”, diz Rita Callegari.E por essas e outras razoes que nesta reportagem você vai ver ideias para deixar seu filho mais livre, sem medo de que adoeça. Pode ter certeza que ele vai se esbaldar, colhendo os benefícios do indulto, e você vai aproveitar os momentos em família sem ter de ficar cobrando respeito a regras rígidas. Boas farras, ops, boas férias!

Um, dois, três e: sujar!

Que momento melhor do que as férias para deixar a criança se sujar?Dê sinal verde para os pequenos sem medo. Depois de ter dois filhos e ser instruído por pediatras a respeito de cuidados de higiene , o pesquisador norte-americano especializado em micróbios Jack Gilbert escreveu com outros dois colegas um livro de perguntas e respostas com o objetivo de esclarecer muitas das questões sobre o assunto sujeira.

Na introdução de Dirt is good- the advantage of germs for your child’s developing immune system (em tradução livre, “Sujeira é bom — o beneficio dos germes para o desenvolvimento do sistema imunológico do seu filho”), ele escreve: A noção de que a maioria dos germes e bactérias ruim e deve ser eliminada é perigosamente errada. Em nosso esforço por vencer todos eles, desencadeamos inadvertidamente uma caixa de Pandora de pragas modernas — a série de problemas crônicos de saúde que se tornaram prevalentes em todo o mundo, como obesidade, asma, alergias, diabetes, doença celíaca, síndrome do intestino irritável, esclerose múltipla, artrite reumatoide e muitas outras”. A teoria do especialista é a de que a criança vacinada está  protegida do que é realmente perigoso. E que o contato com a sujeira é bom, afinal o corpo humano  e feito de 30 trilhões de células humanas contra 39 trilhões de células microbianas, e tem 20 mil genes humanos, contra de 2 a 20 milhões de genes microbianos.

Se isso não a capaz de mudar a sua perspectiva sobre o que é sujeira, talvez valha olhar por um prisma comportamental. “Sujar-se é consequência de uma brincadeira, e não a brincadeira em si. E sinal de que a farra foi boa”, afirma Patricia Camargo, uma das autoras do site Tempojunto e colunista da CRESCER. Ela explica que proibir essa pratica limita as experiências  sensoriais, tão importantes para a primeira infância. “Quando o pai deixa que a criança se suje, ele também permite que o filho experimente a liberdade, exerça a criatividade e estimule todos os seus sentidos”, conclui. Aproveite, então, para permitir que seu filho exerça o livre brincar. Num piscar de olhos ele vai fazer um buraco na terra para preparar uma sopa de lama, folhas, gravetos e pedrinhas.

Passar uns dias longe

Dormir na casa de um amigo ou parente faz parte de um processo de independência  e socialização essencial para as crianças. E importante enfrentar situações desconhecidas e ver como são os costumes alheios. Também é ótimo para estreitar laços com familiares distantes, como fez a designer Lucia Menezes, 38, de São Paulo, que deixou a filha, Alice, 9, it dormir na casa da avo, em Santa Maria (RS), quando a pequena tinha 3 anos e meio. A viagem foi tão gostosa e importante para a menina que ela já repetiu a experiência algumas vezes. Mas, antes de o seu filho ficar uns dias na casa de alguém, fique atento a alguns detalhes para que tudo saia bem:

  • Explique à criança para onde ela vai, quem vai cuidar dela, por quantos dias.
  • Brinquedos Preferidos  ou objetos que seu filho gosta de abraçar na hora de dormir, por exemplo, devem ser colocados na mala. Avise ao adulto que vai receber o pequeno sobre a importância desses itens.
  • Remédios requerem um guia de administração legível e organizado, endereçado ao adulto responsável. Dica: escreva os horários e a dosagem na caixa para facilitar a vida de quem vai lidar com os medicamentos.
  • Crianças maiores podem ajudar a fazer a mala, assim vão aprendendo que e preciso planejar, além de entender que há  roupa para sair e para brincar. Também  sabem o que estão levando e conseguem encontrar as pecas na mala.

Tomar mais de um sorvete“Ah, é muito gelado, vai dar dor de garganta.” Você repetiu essa frase o ano todo, mas agora é hora de se libertar da regra que nem a gente, que é adulto, gosta de obedecer. Vai ter mais de um sorvete, sim! “Mas, para combater a ingestão exagerada de açúcar, é  melhor vincular a delicia com brincadeiras como esconde-esconde, que queimam o excesso de carboidrato e evitam um pico da glicemia prejudicial à saúde”, diz Daniel Becker, que ainda sugere beber agua para arrematar. “Hidratar, depois de uma carga alta de açúcar, é uma boa tática para reduzir sua absorção.” Para não ter esse problema, uma dica é combinar com a criança que o bis será um  picolé de frutas, que é mais nutritivo. Veja uma receita sugerida pela chef Paula Weber (SP), que comanda o programa infantil de receitas Pitadas &Palpites, no canal Chef TV no YouTube:
* Pique em pedaços pequenos algumas frutas que tiver em casa.
* Cubra com  suco de laranja e gotas de limão para que não escureçam.
* Distribua em formas de picolé ou copinhos descartáveis de café e leve para congelar.
 * Depois de uma hora, espete um palito de madeira em cada picolé.
* Volte no congelador por quatro a seis horas. Sirva.

APROVEITE AS FÉRIAS PARA ESTREITAR O VÍNCULO E AUMENTAR O TEMPO DE CONVIVÊNCIA COM O SEU FILHO. PARA QUE ISSO ACONTEÇA, DEIXE SEU CELULAR DE ESCANTEIO, COMBINADO?

Dormir sem banho

Brincar com  água é demais. Mas, quem disse que a gente consegue colocar os pequenos no chuveiro quando eles estão exaustos? Por isso, se o seu filho estiver muito cansado depois de um dia divertido e não quiser tomar banho, melhor nem tentar. Troque a roupa dele e passe um lencinho umedecido nos pés  e nas mãos. “Só não da para pular a ducha se ele entrar no mar, já que a agua salgada pode provocar dermatite”, diz a pediatra Neuma Kormann, do Hospital Pequeno Príncipe (PR).

Tomar chuva

 Sem trovão, raios ou outro sinal de perigo no céu? Então é dia de tomar chuva! Segundo as educadoras norte-americanas Julie Powers e Sheila Williams Ridge, autoras do livro Nature-based learningfor young children: anytime, anywhere, on any budget (“Aprendizagem baseada na natureza para crianças pequenas: a qualquer hora, em qualquer lugar, com qualquer orçamento”, em tradução livre), nessa brincadeira a criança tem a oportunidade de entender de onde vem a água; sentir o piso escorregadio, a grama molhada, a força dos pingos, o som que a chuva produz… Só dê  um  banho quentinho depois, para que o corpo volte a temperatura ideal

Andar descalço

Caminhar sem sapato em chão irregular ajuda a moldar a anatomia do pé e fortalece cadeias musculares que ativam toda a fisiologia musculo-esquelética e até neurológica dos membros inferiores , diz Daniel Becker, isso foi comprovado em um estudo da Universidade de Jena (Alemanha) que também observou que andar descalço proporciona mais equilíbrio aos pequenos.  Então, aproveite o calor e deixe seu filho sem calçado no parque, no prédio, na quadra e em casa, mesmo se o chão for gelado. “Se não tiver vírus circulando, ninguém vai pegar uma gripe ou resfriado”. Tranquiliza o pediatra.

Cozinhar junto sem pressa

Se você ainda não adquiriu o hábito de levar as crianças para a cozinha sem a pressão da hora exata do jantar, aqui está uma ótima oportunidade. Essa, aliás, é uma boa maneira de elas compreenderem como a comida saudável chega a mesa. Estudo da Universidade de Auckland (Nova Zelândia) também encontrou evidências de que adolescentes que sabem cozinhar são mais propensos a se alimentar de forma sadia quando adultos, ou seja, com mais refeições feitas em família, menos fast-food e mais vegetais no prato.
Mas, como é que se aprende? Incluindo a criança desde cedo nos afazeres da cozinha, segundo a engenheira de alimentos Mayra Abbondanza (SP), autora de Dêxa Eeuuu!!!. “Buscar os ingredientes também é uma forma de participar. Os menores podem misturar molhos e medir ingredientes. Depois, podem picar banana com faca de plástico até chegar a pegar em uma faca de verdade”, diz Mayra. É só por volta dos 8 anos que a criança deve aprender a ligar o fogo e a manusear facas, sem ponta, porém, sempre com a supervisão de um adulto do lado. O resultado são crianças cheias de iniciativa e que não vão depender tanto da indústria para se alimentar. Então, já para a cozinha.

Comer besteira

Maria Sofia tern 3 anos, come com os pais à mesa e prefere arroz e feijão a pizza. Porém, quando as férias chegam, a filha mais velha da produtora de eventos Sabrina Abrahão, 33, de São Paulo, passa uma semana na casa dos avós paternos em Itanhaém (SP) e lá ela cai de boca na batata frita. “Eu e meu marido achamos que não serão duas semanas no ano que vão mudar a rotina alimentar dela. Na volta para casa a gente ajusta o cardápio e ela cria urn repertório de memórias importantes”, explica a mãe.
É verdade que esta é uma dica tão saborosa quanto perigosa: deixar comer aquilo que diverte, mas não necessariamente nutre, engorda. “Recebemos algumas crianças que voltam das férias com quatro quilos a mais. É muito. Por isso, vale lembrar que afrouxar as regras nao significa perder o controle”, afirma a nutricionista Lenycia Neri, do Ambulatório do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O jeito alternar a maior oferta de guloseimas e lanches com as frutas, saladas e pratos de comida do tipo arroz corn feijao, que nutrem com eficiência e ainda dão energia para brincar.

Ir para a cama mais tarde…

…porque ficou assistindo a um filme, jogando ou fazendo uma expedição noturna é uma delícia de vez em quando. “A criança pode observar os bichos que aparecem à noite, as sombras que as árvores fazem, percebe a cidade mais cilenciosa e até minimiza alguns medos, como o do escuro, pois descobre que ele não traz riscos”, explica a psicóloga Rita Calegari. É claro que não dá para fazer isso sempre para não virar rotina e também para não desrregular o relógio biológico do pequeno. Por isso, separe um, dois ou três dias (não seguidos) das férias para deixar seu filho ir mais tarde para a cama. E não encane se ele quiser dormir por mais tempo depois. Algumas crianças estão acostumadas a acordar no mesmo horário, mesmo indo para a cama tarde, outras precisam de mais horas de sono para se recompor. Só não deixe de supervisionar a criança. “O ideal é que os pais acompanhem o filho nessa aventura para conversar sobre a atividade”, diz a pediatra Neuma Kormann.

Dormir com o cachorro

As crianças amam e o bicho, idem. “Nunca deixei as minhas filhas dormirem na mesma cama nem no mesmo quarto com o Chico, nosso yorkshire”, conta a psicóloga Vanessa Gabriel, 35 anos, de São Paulo, mãe de Mariana, 7, e Catarina, 4. Mas nas férias a regra muda. “Como vamos passar sempre alguns dias no interior e lá nos hospedamos no mesmo quarto, inclusive o Chico, todos dormem juntos. Não sei quem gosta mais. O Chico fica se enroscando na gente, desesperado de tanta felicidade, e as meninas amam as férias até porque sabem que vão ficar o tempo todo com ele”, diz Vanessa.
Mas, afinal, pode dormir junto com o cachorro? A pediatra Monique Catache, do Hospital Samaritano (SP), responde:

Tem problema dormir junto com um animal?
Há estudos que não apontam problemas e outros que demonstram preocupação com a qualidade do sono da criança, uma vez que a movimentação do cachorro pode levar a vários episódios de despertar. Se for um evento esporádico, não há objeção. Só não esqueça que o cão deve ser saudável, vacinado e ter feito controle de verminoses e pulgas.

Tudo bem fazer isso alguns dias seguidos?
Tudo bem, mas explique para a criança que é uma atividade só das férias.

Fazer uma horta

É uma ótima atividade. A criança mata a vontade de mexer na terra e você realiza o piano de ter temperos plantados em casa.
Dá para comprar mudas ou sementes. E a criança pode acompanhar o crescimento e aprender a origem dos alimentos. Marina Coutinho, da Da Horta — Cultivo Afetivo (SP), explica como fazer uma horta em casa. Espalhe jornais no chão para não sujar toda a casa e mãos na massa, ou melhor, na terra!
COMPRE UMA JARDINEIRA com furos embaixo, terra adubada, argila expandida e manta de drenagem.
PLANTE MUDAS como alecrim e orégano.
ESPALHE A ARGILA no fundo, cubra com a manta, arrume as mudas e complete com a terra.
REGUE TODO DIA e adube mensalmente.

Deixar de escovar os dentes

Pense rápido  em quantas vezes você saiu da praia ou da piscina ou interrompeu aquele dia de churrasco para escovar os dentes? Se nem os adultos fazem isso acontecer, o jeito é caprichar na higiene bucal antes de ir para a cama. “Durante o sono, o fluxo salivar diminui e a atividade bacteriana aumenta”, alerta a odontopediatra Adriana Lira Ortega, professora da Fundação Faculdade de Odontologia (Fundecto-Fousp) e da Universidade Cruzeiro do Sul (SP).

Pular uma refeição

As refeições em horários regrados com comida de verdade fazem bem a todos: do bebê ao idoso. Mas, nas férias… Se a brincadeira estiver boa e a criança não quiser parar para comer, tudo bem pular a refeição. Em viagem de turismo isso a comum — toma-se um bom café da manhã no hotel e o almoço vai ficando para mais tarde. Não se preocupe em compensar a refeição depois, pois a criança deverá, naturalmente, estar com mais apetite. “O problema é que fome dá mau humor”,alerta Daniel Becker O jeito e levar um  belisco na mochila, como cenoura crua ou fruta, por exemplo. Em tempo: a bagunça nesta rotina não cabe para crianças abaixo de 3 anos, porque pode atrapalhar sua saúde e seu desenvolvimento.

Brincar com água

Crianças são capazes de inventar mil e uma maneiras de fazer molhadeira. E se o tempo é perfeito para brincadeiras fresquinhas, antes de liberá-las, de atenção a alguns cuidados. Aproveite para ensinar seu filho que a que estão ambiental deve ser uma preocupacao de todos, então, muita cautela com o desperdício de agua. E o principal: cuidar da segurança. Basta um segundo de descuido para banheiras e até baldes e bacias se tomarem uma ameaça. Nada de bobear. “Não quer dizer que o adulto tenha de interferir a todo momento. Cuide, mas deixe que a criança explore a brincadeira”, ensina Patrícia Camargo, do Tempojunto. A seguir, Patrícia lista ideias por idade.

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